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A diplomacia mandou lembranças

Em meio a grave recessão, chanceler informal do governo comprou briga com importante player do setor petróleo no país

Eduardo Bolsonaro comprou uma briga no mínimo inoportuna ao compartilhar, em uma rede social, postagem que aponta Pequim como grande culpado pela pandemia do novo coronavírus. Fazendo referência a Chernobyl, o deputado federal afirmou que “mais uma vez, uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste (sic)”.

Fonte: Twitter

Filho e chanceler informal do presidente da República, o parlamentar criou – em meio a uma recessão econômica global cuja gravidade talvez não tenha precedentes na história – uma crise diplomática com o maior parceiro comercial do Brasil e que vem ampliando significativamente sua participação no setor petróleo local nos últimos anos.

Sócia da Petrobras no desenvolvimento de Libra, a China adquiriu, desde 2017, seis blocos exploratórios no offshore do país com as estatais CNOOC e CNODC: ES-M-592, Alto de Cabo Frio Oeste, Pau Brasil, Peroba, Búzios e Aram.

As duas últimas áreas foram arrematadas em novembro de 2019, no Leilão dos Volumes Excedentes da Cessão Onerosa e na 6ª Rodada de Partilha da Produção – ocasiões em que as petroleiras chinesas foram as únicas compradoras, ao lado da Petrobras.

Resposta da Embaixada da China no Brasil à postagem de Eduardo Bolsonaro Fonte: Twitter

O comentário, nos bastidores, é que sua entrada nos projetos teria atendido a pedido de Jair Bolsonaro, que esteve com o presidente chinês, Xi Jinping, no final de outubro. Dias após os leilões, durante cúpula dos BRICs, em Brasília (DF), o brasileiro afirmou que “A China cada vez mais faz parte do futuro do Brasil”.

De fato, a expectativa é que os asiáticos elevem ainda mais o tamanho de sua pegada por aqui. A CNODC, por exemplo, já estaria se preparando para adquirir seu primeiro ativo como operadora no Brasil. Já a Sinopec e a CNPC estão entre as possíveis candidatas a comprar refinarias da Petrobras.

Cabe lembrar que a China é também a maior importadora de petróleo brasileiro, tendo recebido, no ano passado, 268 milhões de barris – mais de quatro vezes o volume destinado aos EUA, segundo na lista.

O país é, portanto, peça chave dentro da atual estratégia da Petrobras, que vem desverticalizando suas atividades para focar na exploração e produção de petróleo no pré-sal, mirando receitas com exportações de óleo cru. Não por acaso, a companhia inaugurou, em junho de 2019, um espaço de tancagem para óleo bruto no porto chinês de Qingdao.

Como se não bastasse, os chineses estão entre os principais credores da Petrobras no exterior: nos últimos dez anos, a estatal brasileira assinou pelo menos três contratos de financiamento com o China Development Bank (CDB), no total de US$ 17 bilhões.

Há cerca de um ano, o governo brasileiro se indispôs com o mundo árabe depois que o presidente Bolsonaro anunciou que pretendia transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém – promessa feita à sua base evangélica. Foi preciso que representantes do agronegócio agissem rapidamente para apaziguar o mal estar com o principal mercado consumidor da carne brasileira no exterior.

A diferença, neste novo episódio de absoluta falta de senso diplomático, é que o Brasil arrisca azedar relações com a segunda potência global, que, de quebra, é seu principal cliente, além de grande investidor em projetos no país.

Resta esperar que o Itamaraty e porta-vozes da iniciativa privada contornem a situação, a fim de evitar maiores prejuízos às relações sino-brasileiras.

*João Montenegro é editor do PetróleoHoje e mestrando em Economia Política Internacional.

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