A era do petróleo

"A idade da pedra chegou ao fim, não porque faltassem pedras; a era do petróleo chegará igualmente ao fim, mas não por falta de petróleo". No primeiro choque do petróleo, o Zaki Yamani, ex-ministro do Petróleo da Arábia Saudita, usou tal argumento para alertar as indústrias petroleiras que não deviam aumentar o preço da commodity em demasia para que não viabilizassem as energias alternativas

Há alguns anos, a geologia do petróleo alertava que o petróleo, isto é, o produto da diagênese de restos orgânicos depositados com os sedimentos, devido à pressão e temperatura, resultante do soterramento desses sedimentos, por muitos milhões de anos, era um bem mineral finito. Esse fato veio à discussão com o trabalho do geólogo americano Marion King Hubbert que, em informe técnico, apresentado, em 1956, ao Instituto Americano do Petróleo, formulou a teoria do “Pico do Petróleo” (Peak oil em inglês), também conhecida como “Teoria de Hubbert”.

Segundo ele, a produção de petróleo atingiria o seu ápice devido ao esgotamento das reservas. Nos Estados Unidos, a curva seria alcançada entre 1975 e 1970 e o pico global ocorreria em meio século depois. Hubbert foi muito ridicularizado, mesmo com o pico das renovações das reservas ocorrendo em 1962. A expectativa era alcançar o ponto máximo da produção até 1970. Na verdade, a produção norte-americana chegou ao ápice com 10 milhões de barris de petróleo por dia (bpd) em outubro de 1970, mas o pico da produção ocorreria logo, em 1972[i],. A produção decresceu até 2008 quando baixou a 4 milhões de bpd, antes de recobrar sua produção com 11,3 milhões de barris em novembro de 1918. Os EUA são o maior produtor e, também, o maior importador, consumindo 22 milhões de BOP/d.[ii]

No Rio de Janeiro, a Eco-92, conferência sobre o meio ambiente e desenvolvimento sustentável, alertou a sociedade sobre a necessária preocupação para preservar o planeta de uma inevitável poluição decorrente das atividades antrópicas. Em decorrência, a ONU, em 2016, convidou o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC do Inglês) para estudar os impactos do aquecimento global. Pela conclusão de que o CO2 é um dos responsáveis pelo “efeito estufa”, o petróleo tornou-se, segundo alguns, o principal vilão, levando os órgãos de financiamento a dar prioridade aos projetos de energias alternativas, muitas vezes negando investimentos às empresas de petróleo.

O anúncio de que alguns países irão parar a produção de carros com motor a combustão em 2030 e substituir toda a frota por carros elétricos animou os críticos do petróleo. Voltando a mencionar Yamani, as pessoas acham que o petróleo será substituído por energias alternativas no dia D, em que todo consumo do óleo será definitivamente substituído pelas energias alternativos, num estalar de dedos. Estes ardorosos defensores, que preveem o final próximo da era do petróleo, esquecem de alguns fatos importantes. Inicialmente, relembro o que aprendi na primeira aula de geologia do petróleo e que transmito aos meus alunos logo de início: a característica do petróleo, que o levou a revolucionar a humanidade no século XX, é a quantidade de energia contida em cada gota do óleo e a facilidade para seu transporte, mesmo em barris de vinho, como fez o “coronel” Drake, quando perfurou o primeiro poço de petróleo, em 1859, na Pensilvânia.

Entre as energias alternativas mais promissoras, os biocombustíveis utilizam os mesmos meios de transporte que o petróleo, e o gás natural, o mais animador dentre os possíveis substitutos do óleo, tem necessidade de gasodutos e equipamentos de liquefação de alto custo e difícil de chegar às regiões mais remotas. As demais alternativas substituem a energia elétrica, embora apresentem sérios problemas de sazonalidade, como as usinas atômicas, que geram resíduos de alto risco, principalmente no descomissionamento.

Vale mencionar que, desde Hubbert, que previu o pico da produção global do petróleo para cinquenta anos depois dos pico nos EUA, ou seja 2015-2020, as previsões são feitas, sucessivamente, 30 a 50 anos à frente. Mas, na verdade, a demanda e consumo vem sempre aumentando, ainda que com oscilações na taxa de crescimento, se aproximando de 100 milhões de barris por dia muito brevemente.[i] No entanto, é preciso lembrar que a falta de financiamento para a reposição das reservas de petróleo produzidas levará, necessariamente, a um déficit em relação à demanda, ainda que essa cresça menos ou mesmo diminua gradativamente ao ser substituída por fontes alternativas.

Quanto à substituição do petróleo, Décio Oddone, quando então diretor-geral da ANP (Agência Nacional de Petróleo e Biocombustíveis), afirmou no 49º Congresso Brasileiro de Geologia, que o gás natural, como já mencionado, o mais animador substituto do óleo, leva a considerar a divisão do Pico do Petróleo em dois, do óleo e do gás, sendo que Oddone menciona que o pico do óleo pode ocorrer já em 2028.

No caso do carvão, sem dúvida o maior poluidor, além de sua queima produzir mais CO2, o abandono de seu uso e a transição para outros bens energéticos tem que levar em conta as comunidades que dependem economicamente de sua produção, como o a zona do carvão em Santa Catarina. “Quando se fala em transição, se pensa em sair de um modelo energético e ir para outro. Mas não. Podemos continuar no mesmo, só que descarbonizado, com baixa emissão, e gerando novos produtos de valor agregado”, afirmou, em certa ocasião, Fernando Zancan, da Associação Brasileia do Carvão Mineral.

Hernani Chaves é geólogo de petróleo, PV Emérito FAPERJ (Pesquisador Visitante), AAPG Honorary Member, Professor Voluntário do DEPA – Departamento de Estratigrafia e Paleontologia da Faculdade de Geologia da UERJ, aposentado como Geólogo da Petrobras e como Professor Adjunto da Faculdade de Geologia da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Presentemente, na UERJ, Sub Coordenador do INCT INOG (Instituto Nacional de Óleo e Gás). 

[i] FRERET, VAC;CHAVES, HAF; JONES, CM.- 2019, Evolução do Consumo e Produção de Petróleo no Período de 1965 a 2015. Anuário do Instituto de Geociências 42 (1), 642-655

[i] “Pico do Petróleo” de Hubbert. Wikipedia acessada em 26/07/21

[ii] Monthly USA oil production 1920-2017. Wikipedia- acessada em 26/07/2021

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