Cobertura jornalística da política energética relacionada ao setor de petróleo e gás e de fatos relevantes da indústria e da cadeia produtiva no upstream, escoamento e processamento de petróleo e gás.

Armando Cavanha: Em mutação

Desconcentração da Petrobras no refino pode ser considerada o marco zero da desativação seletiva

O processo de desconcentração de atividades na área de óleo e gás no Brasil se inicia com o anúncio, pela Petrobras, da venda de oito de suas 13 refinarias no país. Como o refino é parte das atividades principais da companhia, esse pode ser considerado o marco zero da desativação seletiva.

Com uma concentração atual de 98% do refino nacional, a companhia parece desejar se livrar do peso de ser a única culpada por constantes aumentos de preços no país.

Há uma variável pouco comentada que é a baixa capacidade aquisitiva dos brasileiros médios, o que torna sensível qualquer aumento de mercado. Além disso, uma economia estagnada, impostos altos, Estado inchado, contas públicas desorganizadas, excesso de logística rodoviária e consequências de incentivos erráticos do passado recente.

Apesar dos preços do diesel para caminhões serem comparáveis com alguns outros países, o desgaste com caminhoneiros é grande e ameaçador. As últimas greves desestabilizam o pensar no longo prazo, trazem o pavor do início de reações de trabalhadores com alto poder de manifestação. A oposição possivelmente procura espaço para se reorganizar e reascender sua liderança para reações.

Pelas informações publicadas, a Petrobras fica com 54% do preço final na bomba do diesel vendido, sendo o restante formado por impostos, distribuição, revenda e biodiesel.

Metade da capacidade de refino estará disponível para venda, e a Petrobras informou que não pretende permanecer sócia nas unidades que serão vendidas.

A empresa escolheu os ativos de forma estratégica, ficando com os grandes mercados do Sudeste em mãos. Resta saber se o Cade aceitará essa aposta seletiva e que pode não mexer tanto na competitividade do mercado fornecedor / consumidor do país.

A opção feita pela petroleira também  envolve o refino mais próximo do crescente escoamento do pré-sal por terminais ou dutos futuros de rotas a serem desenvolvidas para óleo e para gás, otimizando custos finais.

A intenção parece ser a de vender as refinarias junto aos ativos de infraestrutura. Os compradores poderiam ser grupos econômicos desverticalizados no mercado e distintos, com venda integral do ativo, atraindo novos players e ingresso de investimentos.

O presidente Castello Branco disse, em entrevista exclusiva à Globo, que refinar não é atrativo. Cabem duas questões:

1 – Se não é atrativo, quem então teria o interesse em comprar? Como se quer receber 15 bilhões de dólares por unidades não interessantes? Com interferências do Governo? Quem quer vender poderia desdenhar dos próprios ativos?

2 – Fazer o anúncio apenas pela  Globo? O presidente Bolsonaro fala pouco ou nada com a emissora, conduta que aparentemente não é compartilhada por seu subordinado.

O fato é que existe um movimento inicial, um arrojo empoderado e com alta velocidade da ala liberal do novo governo, liderado por Guedes e seguido à risca por Castello Branco. Apenas 5 meses de governo e uma atitude corajosa dos administradores, com a oferta de ativos cuja venda, antes, era impensável.

Aliás, em tese, mudanças fortes são feitas sempre no começo de uma gestão, pois, com o passar do tempo, ações dessa natureza são mais atenuadas.

O case da Shell

Os especialistas em geopolítica e economia dizem que uma refinaria, sozinha, tem margens pequenas atualmente. Os ganhos estão na integração horizontal de upstream e downstream. A Shell, por exemplo, mantém estrategicamente um downstream forte e possui um percentual de receita significativo dessa atividade integrada.

Hoje, a anglo-holandesa tem mais de 80% de sua receita vinda do refino e distribuição, maior proporção entre as majors. E a população a conhece pelos seus postos de serviços, não por suas sondas ou FPSOs do upstream.

O desinvestimento continua na agenda número um de Guedes e Castello. Não parece que o Ministro de Minas e Energia se detenha tanto com o tema. Quem sabe haja uma divisão interna de assuntos no primeiro escalão do governo.

Não apareceram resistências importantes até o momento. Os parlamentares de oposição tentam fazer “barulho”, mas há pouca reverberação. Os sindicatos estão acuados, se enfraqueceram, e, até o momento, não se recuperaram da derrota do principal partido político que os avalizava. A população está magoada com tanta má gestão do passado, e parte dela entende que mudar pela privatização pode ajudar a reduzir os desvios acontecidos.

Não há elementos essenciais que possam servir de argumentos para não executar o plano do governo. Fatores novos podem ocorrer, como o Legislativo propondo regras de desinvestimento de estatais. É esperar para ver.

Possíveis compradores

Os movimentos de venda de rotas de escoamento devem gerar uma nova equação do fluxo de fluidos no país, desestabilizando o equilíbrio atual. A ANP terá mais desafios para gerir riscos de abastecimento com novos players. O responsável pelo abastecimento oficialmente é a ANP, mas sabe-se, na prática, que essa carga continua sobre a Petrobras.

Além disso, a privatização da infraestrutura de gás pode acarretar, num primeiro momento, elevação de preços e importações.

Quem seriam os compradores desses ativos? Como isso se daria? Não está claro ainda. Mas obviamente os fundos de investimentos estão de olhos muito abertos, como o First Reserve Bank, EIG, JP Morgan, Citi,  Riverfund,  assim como operadores de midstream, como Cosan, Raizen, Valero, dentre outros. Os grandes grupos mundiais de petróleo estudam as oportunidades geopolíticas e de mercado.

O fato é que investimentos feitos pela Petrobras no passado, com o sacrifício de elevar sua dívida, não podem ser simplesmente desativados sem a remuneração que a recompense em equilíbrio. Esse é um desafio, porque as políticas do país tendem a gerar confusão e atrapalham os negócios, reduzindo os ganhos de quem vende.

A Petrobras está desativando escritórios em diversos países onde mantinha operações: Japão, Portugal, EUA, Uruguai e Argentina.

O escritório de Houston, que já contou com 500 pessoas trabalhando, atualmente está com cerca de 50 – um layoff pesado. O mercado texano tem absorvido razoavelmente bem esses trabalhadores, por conta do alto nível de empregabilidade no país.

A Petrobras vendeu a Refinaria de Pasadena para a Chevron, e os campos de produção do Golfo do México para a Murphy, ficando apenas com o trading de óleo cru e derivados temporariamente.

O refino americano estava adequado ao óleo pesado da Venezuela, mas agora já não recebe tanto óleo do governo de Nicolas Maduro. E o shale tem processamento diferente e não gera subprodutos do óleo pesado. Seria uma grande oportunidade para o Brasil exportar aos EUA seu óleo do pós-sal de Marlim e outros campos da Bacia de Campos? Alguns dizem que o nosso mercado exportador é a Ásia e não os EUA, desde que a Ásia esteja estável.

“Invasão chinesa”

CNOOC, CNODC, Sinopec e Sinochem têm 19 concessões de óleo e gás no Brasil, em parcerias. Certamente, essa é uma preocupação americana. O presidente Bolsonaro, apesar de acenar com amizade aos americanos, provavelmente terá de se habituar com a “invasão chinesa” no Brasil.

Há um clima de expectativa no país, que está meio parado. Reformas do Executivo que o Legislativo resiste em aprovar; desmobilização do Estado sem contrapartida de aumento da atividade privada imediata; discursos contraditórios do comando central; idas e vindas de decretos; ministros e legisladores em treinamento. A oposição tenta se reorganizar, enquanto o vice-presidente, um pouco isolado, segue agenda própria.

Uma enorme parte da população está desempregada, e o trabalho informal é gigante. Há uma burocracia enraizada incrível, com cartórios, carimbos, etc. Não há incentivo para o empreendedorismo de inovação para fabricação e exportação.

Enfim, trata-se de uma equação bem complicada que não parece ter solução para breve. O que proporciona esperança é que há uma insistência em transformar o país, e a população dá sinais de apoio às mudanças – quem sabe uma inflexão não esteja distante.

Em todo caso, não seria razoável pensar nos altos investimentos das grandes companhias de petróleo no upstream se elas não enxergassem atividade intensa e retorno no futuro próximo.

Mais negócios, menos política.

você pode gostar também