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Jason Prado: Maricá se prepara para um futuro sem petróleo

Município fluminense aproveita “explosão” dos royalties para se transformar em cluster tecnológico

Até muito pouco tempo atrás, Maricá assistia impotente à riqueza que jorrava no nordeste do estado do Rio e passava ao largo do seu território, criando um cinturão de prosperidade ao seu redor.
Mas bastou um pouco mais de tecnologia e um empurrão da natureza para mudarem o destino da cidade: Maricá tirou a sorte grande do pré-sal e passou da condição de patinho feio a Cisne Negro na constelação de cidades produtoras de petróleo. Saltou de uma receita de R$ 8 milhões com royalties em 2008 – ano em que Campos e Macaé receberam, juntas, R$ 966 milhões –, para a segunda maior receita do Rio em 2018, com R$ 519 milhões.

As projeções da ANP a colocam no topo da lista já em 2020, estimando um distanciamento crescente em relação às demais cidades do estado, com receitas anuais acima de R$ 1 bilhão.
Diferentemente de suas irmãs fluminenses, que ergueram monumentos faraônicos e revestiram as calçadas com porcelanato enquanto assistiam a suas áreas urbanas explodirem com a migração descontrolada, Maricá parece se preparar para os dias difíceis que certamente virão na medida em que o petróleo perder relevância na matriz energética.

A cidade mostra que aprendeu com a experiência alheia e cresce de forma organizada, apostando na educação e na saúde como fatores de transformação. As escolas de Maricá são bem equipadas, professores preparados e em constante desenvolvimento. Um foco especial é dado à educação infantil, mas também sobra espaço para outras prioridades, como hospitais, os Centros de Artes e Esportes Unificados e as lonas culturais. Sem falar no transporte gratuito para toda a população e no passaporte universitário, que facilita o terceiro grau a todos os seus cidadãos.

Esse uso das receitas petrolíferas difere totalmente daquele praticado pelas cidades da Bacia de Campos, mais ao norte, porque está lastreado por um sólido programa de desenvolvimento, cujo ponto de partida é a premissa de transformar radicalmente o futuro da cidade.

Essa política criou um fundo soberano com os royalties, carimbando e canalizando sua aplicação em projetos que primam pelas consequências. E também criou uma companhia de desenvolvimento local, uma espécie de banco de fomento, a quem entregou a tarefa de planejar e executar os caminhos que a levarão à total independência dos recursos naturais que pavimentam seu futuro.

Nos últimos anos a Codemar tem trabalhado na construção de um novo modelo econômico, baseado em suas peculiaridades geográficas, sua privilegiada posição dentro da Região Metropolitana do Rio e capacidade de alavancar mudanças com os recursos do petróleo. A cidade aposta na inovação e na propriedade intelectual como nova fonte de riquezas.

Está em curso a implantação do maior parque tecnológico do estado em Maricá, em parceria com os parques tecnológicos de São José dos Campos (SP) e da Andalucia, na Espanha. Diversas universidades brasileiras se associaram ao projeto, como a paulista Unicamp. Muitas empresas já trabalham na implantação de indústrias na cidade, como a italiana Leonardo Aerospace, fabricante de drones de patrulhamento marítimo e segurança territorial. A economia começa a pulsar em um ritmo totalmente diferente das bombas que drenam óleo nos campos petrolíferos.

Na esteira dessa transformação, nada foi esquecido. Para evitar a expulsão de nativos, a explosão migratória e a especulação predatória sobre suas terras, Maricá investe maciçamente na formação de jovens com aptidões e habilidades diferenciadas para o uso das tecnologias da informação e da comunicação. A cidade está integrando sua população ao projeto do parque tecnológico.
Uma das ações que demonstram esse compromisso é o esforço que Maricá faz para criar um cluster de games na cidade.

Baseada em estudos da USP para o BNDES, que identificaram o nexo de causalidade entre os polos de tecnologia com comunidades de usuários de games em todo o mundo, a Codemar investiu na aceleração desse processo: promoveu uma Oficina de gamificação para todos os professores da rede pública de ensino; ofereceu uma aula de gamedesign (arquitetura de jogos) para os alunos de escolas públicas e privadas, e promove um torneio intercolegial de games reunindo todos os estudantes de Maricá. E ainda prepara a inauguração de uma estação gamer, a e-base de Maricá – um CT para usuários e e-atletas.

É a primeira cidade brasileira a abraçar o e-sport como atividade oficial em suas escolas e a incentivar um arranjo produtivo através dos games. O que, para muitos, pode parecer inusitado (não são poucos os estados e cidades que consideram os jogos eletrônicos mero entretenimento alienante), é uma política agressiva de impulsionamento educacional. Bastaria lembrar que as principais universidades do hemisfério norte já oferecem vagas e bolsas de estudos para e-atletas e que essa indústria é muito maior do que toda a indústria do cinema.
Pelas respostas colhidas até o momento, é possível afirmar que Maricá tem todas as condições para fugir ao estigma dos ciclos viciosos extrativistas. O futuro que está plantando é sólido e promissor.

Jason Prado é diretor Executivo da Leia Brasil. Sob o patrocínio da Petrobras, trabalhou por 20 anos nas cidades produtoras de petróleo brasileiras.

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