Cobertura jornalística da política energética relacionada ao setor de petróleo e gás e de fatos relevantes da indústria e da cadeia produtiva no upstream, escoamento e processamento de petróleo e gás.

Leilão reverso em alta

Petrobras adota novo modelo na contratação de bens e serviços offshore, provocando reações entre fornecedores

A Petrobras vai deixando para trás o tempo de exclusividade das licitações tradicionais. Desde o fim do ano passado, apoiada pela Lei das Estatais (13.303/2016), a petroleira tem recorrido com mais frequência ao modelo de leilão reverso na aquisição de bens e serviços junto à indústria fornecedora. A novidade agita a maioria dos segmentos especializados.

Introduzida de forma tímida, a nova metodologia de contratação vem ganhando espaço na petroleira, sendo adotada, por exemplo, na contratação de Unidades de Manutenção e Serviço (UMS) e de serviços de construção e montagem (C&M). Recentemente, a novidade foi estendida também a uma licitação destinada ao afretamento de sondas ancoradas, gerando grande repercussão entre as empresas de perfuração.

Unidades de manutenção e serviço (UMS) estão entre os bens licitados pela Petrobras sob o modelo de leilão reverso

 

Segundo informações da Petrobras, já foram concluídas nove licitações feitas sob esse modelo. No período entre junho de 2018 – data da entrada em vigor da Lei das Estatais – até o final de janeiro, foram lançadas 1.447 licitações, sendo 1.304 na modalidade fechada de concorrência, 67 na metodologia de leilão reverso e 76 no formato de pregão.

Convencionalmente chamada de disputa aberta, a modelagem de leilão reverso é vista pela petroleira como uma evolução no processo interno de contratação, sobretudo em um momento de mercado saturado e preços do petróleo em baixa.

Nesse modelo, as empresas apresentam suas propostas no portal eletrônico de compras da Petrobras (Petronect) e, em seguida, têm acesso aos preços dos demais ofertantes, sem que seu nome seja revelado. Os participantes podem apresentar novos lances para reduzir o valor das propostas, acompanhando o processo online. Caso a diferença de preço entre o primeiro colocado e o segundo seja menor que 10%, a comissão de licitação pode reabrir em sequência um novo leilão a todos os participantes.

Na avaliação da Petrobras, o novo modelo de contratação viabiliza a redução dos custos e do tempo de contratação. Enquanto nas licitações convencionais os processos podem se arrastar por até um ano, no leilão reverso o vencedor é conhecido no mesmo dia.

À BE Petróleo a petroleira afirma que a modelagem proporciona redução de 30% no tempo de tramitação do processo em relação à licitação convencional de disputa fechada. A companhia argumenta que, sob esse sistema, as empresas têm a vantagem de conhecer, na etapa dos lances, os preços ofertados pelos concorrentes, tendo a possibilidade de oferecer novos lances no decorrer do processo.

A duração das licitações é de fato uma preocupação para a Petrobras, ainda que a área de Assuntos Corporativos, pela Gerência Executiva de Suprimento de Bens e Serviços, tenha conseguido reduzir o tempo médio em 40% desde 2017. Lançada em maio daquele ano, a licitação para afretamento do FPSO de Búzios V – um dos projetos prioritários da petroleira –, por exemplo, está há quase dois anos em aberto.

“A modalidade de preço aberto ou leilão reverso é rápida, objetiva, transparente e mede online a competitividade do mercado. Os processos são céleres, sem precisar da intervenção da Petrobras”, avalia uma fonte da companhia.

A adoção do modelo tem garantido um número maior de empresas nos processos. Em uma licitação recente para contratação de serviços de C&M, feita sob o regime de leilão reverso, o número de participantes ficou próximo de 50 empresas, muito acima da média das licitações anteriores.

A petroleira também recorreu ao leilão reverso na licitação dos Centros de Defesa Ambiental (CDA), que teve cerca de dez empresas na disputa, gerando média de 38 lances por participante. Outro processo recente sob o modelo foi para contratação de UMS, na qual participaram dez empresas, ofertando 16 embarcações e um total de 87 lances.

Opiniões distintas

Na Petrobras, prevalece a avaliação de que o novo modelo é mais eficiente, principalmente enquanto o mercado estiver com demanda reprimida e a petroleira for praticamente o contratante único no país. Futuramente, quando a indústria voltar a aquecer e petroleiras de grande porte como a Shell, Exxon e Equinor começarem a engrossar suas encomendas de equipamentos e serviços no país, Petrobras terá de rever a estratégia, voltando a priorizar os modelos convencionais de licitação.

Entre as empresas, prevalece o clima de preocupação com a mudança. Fornecedores especializados argumentam que a utilização do modelo de leilão reverso faz sentido para compras de produtos simples, como papel e caneta, mas não se aplica a equipamentos de grande porte e que envolvam tecnologia de ponta.

A percepção é de que a modalidade nivela a cadeia fornecedora por baixo, sem fazer qualquer tipo de distinção, e canibaliza as empresas de bens e serviços. Empresários argumentam que equipamentos como sondas e UMS têm suas particularidades e não podem ser tratados como uma coisa única, sem diferenciação.

A alteração no processo acontece no momento em que a indústria fornecedora, nacional e estrangeira, sofre com baixa do volume de encomendas em todo mundo, o que levou os preços dos serviços e dos equipamentos a despencar. Hoje, sondas de águas profundas estão são afretadas com taxas diárias entre US$ 100 mil e US$ 200 mil, ante os valores praticados no passado, que chegaram a ultrapassar o patamar dos US$ 500 mil/dia.

A Petrobras vem testando também outras práticas de contratação previstas na Lei 13.303. Uma das modalidades é a licitação por deságio, na qual a petroleira divulga seu preço, e os proponentes ofertam deságio para o valor.

você pode gostar também