Opinião

Novos recordes de reinjeção no país reacendem discussões sobre monetização do gás offshore por FLNGs

O Brasil vive um paradoxo de ser ao mesmo tempo um exportador de petróleo e importador de gás natural

Por Rodrigo Pinho

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No início deste ano, o Brasil bateu novo recorde de reinjeção de gás natural atingindo a incrível marca de 50% da produção nacional. São quase 70 milhões de m³ de gás retornando aos poços, volume que chama a atenção por ser três vezes maior do que o volume importado da Bolívia e que tende a crescer exponencialmente se comparado às projeções de crescimento da produção brasileira de petróleo.

O Brasil vive um paradoxo de ser ao mesmo tempo um exportador de petróleo e importador de gás natural, algo que denota estranheza. Como a produção de gás natural no Brasil é associada ao petróleo, a narrativa utilizada é a de que o gás reinjetado ajuda a manter a pressão dos reservatórios e a produzir mais petróleo, o que é fato. Mas também é fato de que a razão maior para tal nível de reinjeção é a de que não existe infraestrutura de escoamento para trazer este gás para terra no intuito de ser monetizado e, mesmo se tivéssemos, não teríamos mercado para tanto gás.

Enquanto seguimos por aqui aceitando esta narrativa, os mercados vêm mudando e se adaptando rapidamente a um novo cenário energético, onde o gás natural e o GNL terão um novo e significativo papel na transição e segurança energética. Diante disso, por que insistimos que os gasodutos offshore são a única alternativa viável para a monetização do gás do pré-sal? Com os preços atuais do gás natural e prognósticos de mercado para o GNL, será que a narrativa do gás sendo imprescindível para maximizar a produção de petróleo ainda se sustenta? Existem, afinal, outras técnicas de Enhanced Oil Recovery (EOR) passiveis de aplicação, tais como a injeção de água, químicos e outros gases (dióxido de carbono, por exemplo) que poderiam ser consideradas.

Existe também outra alternativa que vem demostrando viabilidade técnico-econômica e recebendo vultosos investimentos, mas que ainda nem se cogita por aqui como potencial de monetização do gás offshore: os FLNGs (Floating Liquefied Natural Gas) ou Instalações Flutuantes de Produção de Gás Natural Liquefeito.

O advento do GNL offshore

Cada vez mais o advento do GNL offshore e dos FLNGs parece um caminho sem volta. As companhias de FLNGs estão prontas para aproveitar novas oportunidades deste setor em crescimento após uma série de desenvolvimentos atraentes na Ásia, África e em outras províncias produtoras.

Originalmente concebido e desenvolvido para explorar recursos de gás remotos ou encalhados, o FLNG está atualmente sendo implantado em águas rasas e profundas. A tecnologia também está ganhando cada vez mais força como uma opção de desenvolvimento onde a liquefação onshore pode ser um desafio devido a problemas de segurança, falta de infraestrutura ou outros fatores. A operação de unidades FLNG não é mais desafiadora do que a operação de instalações de liquefação onshore ou mesmo de FPSOs. Algumas companhias acreditam que a inserção dos FLNGs no mercado brasileiro possui fortes sinergias com a experiência e complementaridade das operações de FPSOs.

Diante dos volumes crescentes de reinjeção, o Brasil precisa importar gás natural para atender suas necessidades energéticas, e grande parte do volume importado de gás entra no país sob a forma de GNL, o que o faz competir pelo combustível com Europa e Ásia e o deixa em situação extremamente vulnerável. O gás offshore reinjetado, portanto, apresenta oportunidades interessantes para os FLNGs e para o país.

As características da produção de gás offshore associado à falta de flexibilidade dos mercados locais de gás natural apresentam um desafio adicional para a produção.  No passado, estudos realizados sobre a viabilidade de FLNGs no offshore brasileiro foram baseados na experiência do Shell Prelude FLNG como benchmark. Tal mercado global de gás natural, contudo, já não existe mais, o que reforça a necessidade de revisitar os estudos à luz de novos conceitos. Desde então, muita coisa mudou.

Hoje, os novos designs de FLNGs são ideais para operações de pequena e média escala, oferecendo capacidade de armazenamento de produção de até 200 mil m³. As unidades são adequadas para fluxos de gás enxutos e ricos, possuem todas as principais tecnologias de tratamento e liquefação, sendo projetados para alcançar um longo período de produção. Esta tecnologia tem o potencial de ser um “game changer” no mercado de gás brasileiro, ajudando a viabilizar, em parte, a monetização do gás do pré-sal.

Conceitos de FLNGs de menor escala, como os FLNGs da Petronas (PFLNG Satu e PFLNG Dua) e da Golar LNG (FLNG Gimi e FLNG Hilli Episeyo), o novo desenho geopolítico do mercado de global de gás / GNL e, sobretudo, o fato de o Brasil caminhar para ter de nove a 12 terminais de GNL até o final da década, tem que ser levados em consideração.

Isso sem falar que está em andamento o desenvolvimento de um novo um método capaz de transformar antigos navios-tanque de GNL (“old ladies”) em FLNGs, que podem reduzir o custo de construção em cerca de 30% em relação aos métodos convencionais. Através deste método desenvolvido, os tanques esféricos podem ser removidos dos navios-tanque de GNL antigos e instalados em plantas de FLNG. Seis desses tanques são montados no centro de uma estrutura flutuante. Além de reduzir o custo de construção em até 30% em comparação com a construção de um FLNG a partir do zero, o método promete reduzir significativamente o tempo de construção das instalações e consequentemente o “go-to-market”. Estima-se que existem cerca de 120 a 130 navios-tanque de GNL no mundo equipados com tanques esféricos que podem ser transformados, cerca de 50 dos quais serão desativados em um futuro próximo.

Supondo que todos os 50 navios-tanque sejam reutilizados e que cada um tenha capacidade de carregamento de 70 mil toneladas, um volume total de 3,5 milhões de toneladas poderia ser transportado. Isso equivale a cerca de 30% das importações de GNL da Europa no mês de janeiro de 2022. A iniciativa de viabilização dos FLNGs poderia criar acesso a uma fonte de GNL de custo mais baixo, fornecendo uma solução para a monetização do gás offshore pelas empresas, aumento de arrecadação pelos governos, oferta local de GNL não indexada e flexibilidade abrindo as portas do mercado internacional de gás natural transformando o Brasil em exportador da molécula.

O Brasil já é o maior mercado de FPSOs do mundo e tem potencial para se tornar um grande, senão também o maior mercado de FLNGs do planeta.

Rodrigo Pinho é gerente de Novos Negócios da Vopak LNG para as Américas

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