Opinião

O Rimland e o “perigo verde”

Por que o Oriente Médio não deixa de figurar como uma das regiões centrais na geoestratégia dos EUA

Por João Montenegro da Silva Pereira Reis

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Que nossa posição fique absolutamente clara: qualquer tentativa por uma força externa de ganhar o controle da região do Golfo Pérsico será entendida como uma agressão dos interesses vitais dos Estados Unidos da América, e tal agressão será repelida por quaisquer meios necessários, incluindo força militar [1].

Em 23 de janeiro de 1980, o então presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, inaugurou, com esse discurso perante o Congresso, a doutrina que definiu o Golfo Pérsico como área de segurança máxima em função de sua importância para o suprimento de petróleo e gás.

Formulada por Zbigniew Brzezinski, a Doutrina Carter teve como uma de suas bases inspiradoras a Teoria do Poder Terrestre, de Halford Mackinder (1919), segundo a qual é preciso dominar as bordas da Eurásia (Rimland) para evitar que a Rússia (Heartland) tenha acesso aos mares quentes, tornando-se uma “potência anfíbia”.

O estrategista inglês considerava a Eurásia o continente basilar para o equilíbrio global devido às suas dimensões territoriais e de população, além da disponibilidade de recursos econômicos, naturais e militares. Assim, quem dominasse essa “Ilha Mundial” – a qual compreendia também a África – dominaria o mundo.

A Ilha Mundial de Halford Mackinder

O mapa geoestratégico de Halford Mackinder

Lá se vão quatro décadas desde o discurso de Jimmy Carter, e é certo que muita coisa mudou: a União Soviética foi dissolvida, a China assumiu o lugar de principal ameaça à hegemonia estadunidense, e o “perigo vermelho” foi dando espaço a novos inimigos na geoestratégia americana, como o narcotráfico – daí a instalação de bases norte-americanas na Colômbia, que também visavam garantir o escoamento de óleo e gás da região [2] – e o fundamentalismo islâmico (“perigo verde”).

Sob o pretexto da ameaça terrorista, os EUA fizeram incursões militares no Afeganistão (2001), Iraque (2003), na Líbia (2011) e Síria (2012-2019, direta ou indiretamente) – países do Rimland que, após os ataques às Torres Gêmeas, passaram a integrar o chamado “Eixo do mal”, justificando a realização de “guerras preventivas”.

O Oriente Médio seguiu, portanto, como uma das regiões centrais na geoestratégia americana, figurando em todos os documentos de segurança nacional publicados pelo governo desde o fim da Guerra Fria, incluindo a gestão atual:

“Os Estados Unidos buscam um Oriente Médio que não seja um porto seguro ou zona de reprodução para jihadistas terroristas, dominado por poderes hostis aos Estados Unidos, e que contribua para um mercado global de energia estável” [3].

O novo embate que se desenha no Golfo Pérsico, após o ataque que matou o general iraniano Qasem Soleimani, envolve, agora, o antigo Império Persa, uma potência que disputa a hegemonia regional com a Arábia Saudita – principal aliada dos EUA no Oriente Médio ao lado de Israel – e que conta com apoio da Rússia e China.

Como já ressaltamos por aqui, o Irã têm atuado fortemente na geopolítica dos gasodutos eurasianos, na qual os EUA também estão implicados, seja na condição de potencial competidor – tendo em vista o aumento de suas exportações de GNL – como na de “guardião” do abastecimento de nações amigas na região [4].

Cabe destacar que a república islâmica é membro observador da Organização da Cooperação de Xangai (OCX), da qual fazem parte a China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tadjiquistão, Uzbequistão, Índia e Paquistão. Antagônica à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a entidade política, econômica e militar vem discutindo arranjos comerciais e financeiros fora da esfera do dólar e a formação de um cartel de gás natural.

Em meio à escalada das tensões, o Itamaraty publicou nota praticamente respaldando o assassinato de Soleimani, o que levou a chancelaria do Irã a convocar o representante do Brasil em Teerã, no último domingo (5/1), para pedir explicações à diplomacia brasileira.

É fundamental que o governo do presidente Jair Bolsonaro aja com cautela neste momento, tendo em vista a preservação das trocas comerciais entre o Brasil e o Irã – que está longe de ser desprezível – e o fato de que, nas relações internacionais, deve-se almejar, em primeiro lugar, objetivos geopolíticos.

É claro que valores morais e ideológicos devem ser perseguidos, mas estes não podem, em absoluto, se interpor a ações que visem à segurança nacional, como nos ensinaram o Cardeal de Richelieu, príncipe católico francês que se aliou a protestantes prussianos contra o Império Habsburgo no contexto da Contra-Reforma, no século 17, ou como fizeram os EUA, com a diplomacia triangular, em 1969, abrindo diálogo com a China comunista para vulnerabilizar a União Soviética.

Aliás, não custa lembrar que, até outro dia, Donald Trump estava apertando a mão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, chamando-o de “Grande Líder”. Pois quem disse que o ex-empresário e showman não sabe o que faz?

João Montenegro é editor do PetróleoHoje e mestrando em Economia Política Internacional pelo Pepi-UFRJ.

[1] EUA, Foreign Relations Of The United States, 1977–1980, Volume Xviii, Middle East Region; Arabian Peninsula. Disponível em https://history.state.gov/historicaldocuments/frus1977-80v18/d45 . Acesso em 7/01/2019

[2] KLARE, M. Blood and Oil: the dangers and consequences of America’s growing dependence on imported petroleum. Nova York, Metropolitan Books, 2004, p. 135-140.

[3] EUA, 2017. National Security Strategy. Disponível em http://nssarchive.us/wp-content/uploads/2017/12/2017.pdf . Acesso em 7/01/2019.

[4] No final de dezembro, a Allseas interrompeu os trabalhos de instalação do Nord Stream 2, gasoduto submarino que ligará a Rússia à Alemanha pelo Mar Báltico. A decisão foi tomada após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aprovar a imposição de sanções a empresas que ajudem a Rússia a construir gasodutos para fornecer gás à União Europeia.

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