Panorama

Opinião: Opep e IEA em pé de guerra na COP 28

Na "guerra de narrativas", a Opep parece lidar com o mundo tal como ele é, não como deveria ser. A IEA, por sua vez, parece estar enfeitiçada pelo pensamento mágico

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Entre 30 de novembro e 12 de dezembro, a suntuosa Dubai, um dos sete emirados erigidos pelo poder econômico dos petrodólares, sediará a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2023, a COP 28, sob os auspícios do presidente-executivo da Adnoc (Abu Dhabi National Oil Company), Sultan al-Jaber, que será o líder das negociações entre representantes de 200 países.

Com o tabuleiro geopolítico fraturado pelos flagelo da guerra, eventos climáticos extremos, tensões regionais e, claro, a disputa pela hegemonia global entre EUA e China, os dois maiores PIBs do planeta (e, não por acaso, os dois maiores emissores de CO₂), a “diplomacia verde” terá a tarefa hercúlea de reafirmar os princípios combalidos do Acordo de Paris.

A novidade deste ano é o acirramento das visões de futuro da Opep e da IEA, que travam uma “guerra de narrativas”, que opõe, a grosso modo, os países exportadores de petróleo e as nações importadoras da OCDE. O antagonismo remonta ao primeiro choque do petróleo em 1973, quando o embargo dos países árabes quadruplicou o preço do barril, tendo como reação do Ocidente a criação da IEA no ano seguinte.

Diante da publicação do relatório The Oil and Gas Industry in Net Zero Transitions”, o secretário-geral da Opep, Haitham Al Ghais, considerou que a IEA dispensou um tratamento “pouco diplomático” à indústria do petróleo ao elegê-la como responsável pela crise climática. De fato, a polarização reduz a discussão a um nível rasteiro que não dá conta da complexidade do tema.

Na esteira da IEA, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse que “o período dos combustíveis fósseis chegou ao fim”. Seja como for, os fatos desmentem a sentença de morte. Impotente frente às conflagrações na Europa e Oriente Médio, o “wishful thinking” da organização parece ignorar que eliminar o petróleo e gás da equação vai aprofundar, por agora, a insegurança alimentar no mundo.

Antes da invasão russa à Ucrânia desencadear o embargo ao petróleo e gás russos, os europeus estavam na proa do debate climático. Mas sem acesso a energia barata para produzir bens industriais de alto valor, as economias do Velho Mundo, acossadas pela pandemia, foram colocadas de joelhos. Sem pudor, recorreram às térmicas a carvão para desespero de Greta Thunberg.

O “choque de energia” poderia ser um convite a um “choque de realidade”. Mas desprovida de bom senso, a União Europeia (UE) continua “demonizando” os combustíveis fósseis como se deles não dependesse. Talvez por não tê-los, tenta empurrar goela abaixo sua agenda neocolonial como receituário infalível para superar a crise climática, sem considerar as assimetrias globais. 

Dito isto, é justo, por exemplo, que a África, o continente mais pobre do mundo, que abriga cerca de 16% da população mundial mas que contribui com apenas 3% das emissões de CO₂, não desenvolva suas reservas de óleo e gás? Ou que o Brasil, um “credor ambiental”, detentor de matriz energética majoritariamente limpa, alta produtividade agrícola, recursos hídricos e florestais, seja esnobado como “vilão do clima”?

Em 1972, na Conferência de Estocolmo, a primeira grande reunião de chefes de Estado organizada pela ONU para tratar do meio ambiente, a então primeira-ministra da Índia, Indira Gandhi, desconfiada da intenção velada dos países de primeiro mundo em “chutar a escada” do desenvolvimento, declarou: “o pior tipo de poluição que existe é a pobreza”. 

Cinco décadas depois, a humanidade se depara com a transição energética mais complexa de sua história. Diferente das passagens de bastão da lenha para o carvão e do carvão para o petróleo, não se trata apenas de substituir uma fonte pela outra com a âncora do fator econômico. O fator climático é que vai determinar, sobretudo, o porvir. Mas a que custo?

Num planeta habitado por 8 bilhões de pessoas ávidas por melhorarem seus níveis de renda e consumo, o mundo precisará de mais energia, não de menos. Afinal, quem vai negar a legítima aspiração de países como o Congo e a Etiópia, por exemplo, de terem o mesmo consumo de energia per capita dos EUA e UE? Enquanto uns não pretendem abrir mão de nada, outros não tem do que abrir mão.

Num padrão de desenvolvimento econômico orientado pela exploração intensiva de recursos e consumo desenfreado, onde PIB e CO são coirmãos, o petróleo não é o vilão como quer nos convencer a IEA. Sem colocar o dedo na ferida, o discurso sedutor (e tolo) da “transição energética justa” só vai penalizar os mais pobres, como alertou Indira Gandhi.


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