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Opinião

Petrobras se posiciona atrás das operadoras privadas na corrida da transição energética

As mudanças na governança da Petrobras têm colocado em segundo plano a inclusão mais assertiva da transição energética na visão estratégica da companhia

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Nos últimos anos, a Petrobras protagonizou algumas tentativas de estabelecer acordos e criar alianças com empresas já maduras em atividades de geração de energia eólica offshore. Entretanto, devido à priorização dada à política de desinvestimentos e ao direcionamento da maior parte dos recursos da empresa às atividades de E&P, essas iniciativas não avançaram de forma a ampliar a atuação da companhia em negócio de energia limpa. Nesse sentido, a estatal está seguindo uma direção diferente de seus pares, mesmo o Brasil sendo um mercado com grande potencial para desenvolver fontes renováveis.

O Ministério do Meio Ambiente avaliou a capacidade de geração de energia eólica do país com base na extensão litoral nacional. Com uma dimensão de mais de 7 mil km, o potencial de geração atinge uma ordem de grandeza de cerca de 700 GW. Este cenário é correspondente a “quatro vezes a produção total de energia do país e quase 20 vezes a energia eólica offshore atual do mundo”. Já em 2020, um estudo conduzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) previa uma estimativa de 679 GW do potencial do vento offshore em áreas com profundidade de 50 metros, podendo alcançar a ordem de 1000 GW em outras de até 100 metros. Este potencial de geração atrai cada vez mais investimentos e torna-se porta de entrada para inúmeras oportunidades no segmento eólico.

Adicionalmente ao potencial de geração, o país acumula ainda excelente know-how no desenvolvimento de parques eólicos onshore, além dos vastos anos de experiência em atividades do setor petrolífero nacional em águas rasas e profundas. Todas essas características positivas para o desenvolvimento desse tipo de atividade de baixa emissão no Brasil parecem ser atrativas para diversas companhias que atuam no setor, como a Veritas com o parque Alpha, o maior do estado do Ceará; a Votu Winds com um parque que contém 144 torres de geração de energia eólica instaladas no Espírito Santo com 10 MW de potência cada uma dessas; as companhias OW Offshore, Engie e EDP com o parque Vento Tupi no Piauí; a OW Offshore com o maior parque eólico do Rio de Janeiro, o Ventos do Atlântico; e, também no litoral carioca, a Equinor com o recente parque Aracatu, sendo o segundo maior da região.

Em janeiro deste ano, a partir de dados do IBAMA, mais de 35 processos de licenciamento ambiental para construção de parques eólicos offshore no Brasil estavam em análise. Isto configura um cenário
de grande movimentação de fora para dentro no mercado brasileiro no setor. É possível que grande parte seja proveniente de grandes operadoras estrangeiras que enxergam o Brasil como o próximo “ponto de parada” após o estabelecimento em outros países.

Apesar desses fatores, a Petrobras até o momento não tem se mostrado disposta a entrar nessa “corrida”. Em junho de 2022, a estatal reapareceu nos noticiários vinculada a um projeto de construção de parque eólico offshore no país com a operadora Equinor, sinalizando a possibilidade de um retorno da companhia neste segmento.

Juntas, as operadoras planejam construir um parque dessa natureza no litoral fluminense com capacidade de geração de 4 GW. A Equinor, que já tem se consolidado no segmento eólico offshore no Reino Unido, vem buscando entrar nesse mercado no país desde 2020 quando iniciou o processo de licenciamento ambiental para dois projetos destinados à costa sul do Brasil.

Contudo, como já alertado, com mais uma mudança de governança da companhia em meio a um conturbado ambiente político, ainda restam dúvidas se, de fato, esse passo significa uma volta dos renováveis à agenda estratégica da companhia. A Petrobras continua com uma atuação tímida quando o assunto é o avanço da transição energética no Brasil. Enquanto a BP, Equinor, Shell e TotalEnergies já apresentam um portfólio bastante diversificado em termos de combustível limpo nos últimos anos, a Petrobras ainda tem marchado no
caminho contrário, reduzindo os projetos nessa frente desde 2015.

Apesar do potencial brasileiro, a estatal, a partir dessa lógica do governo, tem resistido ao caminho para as fontes de energias limpas. Não se entende ao certo se é uma falta de patrocínio da governança da
operadora brasileira, ou o alto custo de implantação e o retorno a longo prazo a serem superados, ou, ainda, se a companhia está apenas ignorando a conjuntura climática e se alimentando do alto lucro dos combustíveis fósseis. Independentemente dos riscos, o fato é que todas os principais players estão dispostos a encará-los, ao contrário da Petrobras.

Nathália Pereira Dias é pesquisadora em Energias Renováveis no Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep). É graduada em Engenharia Química pela UFF, pós-graduando em Energia pela COPPE/UFRJ e mestre em Engenharia da Nanotecnologia pela COPPE/UFRJ.


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